Ao
longo dos meus muitos anos de trabalho, nunca deixei de ficar incomodada com
alguns comportamentos inadequados que, com alguma regularidade, via acontecer
perto de mim. Em algumas ocasiões, essas condutas nem me atingiam
diretamente, mas era algo que ficava martelando na minha cabeça.
De
uma maneira geral, quando alguém inicia uma carreira, nutre o desejo de
conquistar promoções. Assim, é natural que os ocupantes de cargos mais altos,
os líderes dentro da empresa onde o iniciante começa a trabalhar, sirvam de
modelo para as pretensões relativas às carreiras dos novatos. O problema é
que os valores da empresa são transmitidos de forma mais eficiente com o
exemplo da conduta adotada pelos gestores; normas escritas e palavras soltas
têm um peso muito menor. A busca por cargos melhores, maiores remunerações e
mais poder é um objetivo amplamente compartilhado. Poucos conseguem
"chegar lá", independente de onde está localizado esse
"lá", se em níveis médios de comando ou se o objetivo é o lugar
mais alto na escala hierárquica.
Claro
que a competência, a dedicação ao trabalho, o interesse em adquirir novos
conhecimentos e habilidades são diferenciais importantíssimos, mas,
provavelmente, mais do que todos esses pré-requisitos, os mais importantes
sejam a conduta adotada e a rede de relacionamentos construída.
Gostaria
de destacar aqui a importância do que os iniciantes aprendem com a observação
da conduta de seus líderes.
Sabemos
que nem todos têm a sorte de nascer em uma família íntegra, na qual os pais,
avós, tios e professores estejam aptos a ensinar e praticar a conduta ética
como padrão de comportamento, respeitando o direito alheio e levando em
consideração as consequências de seus atos. Quando iniciam sua vida adulta e
produtiva, as pessoas tendem a atuar com base na experiência que vivenciaram
em casa, que se habituaram a ver nas suas comunidades e na escola em que
estudaram. Se essa experiência não for a adequada, o que se pode esperar?
Importante
lembrar que vivemos em um país e num tempo com enorme carência de líderes,
especialmente de líderes que sirvam de exemplo por sua integridade moral, por
sua educação e conduta ética em todos os setores. Talvez o último que ainda
cumpra esse papel seja Airton Senna. Não apenas pela brilhante carreira
construída com base em sua personalidade determinada e extremamente
competitiva, mas por sua atuação dentro e fora das pistas e pelo legado
deixado com a criação do instituto que tem seu nome e que trabalha em prol
dos mais carentes. Senna nunca fugiu de uma boa disputa pela melhor
colocação, mas nunca utilizou recursos inadequados para impor sua supremacia
(exceto com Alain Prost, mas em clara demonstração de revide). Mas Senna já
se foi há 17 anos! Assim, alimentados pela falta de bons exemplos, jovens
iniciantes encontram em seus superiores hierárquicos os modelos de conduta
que servirão de base para seus próprios comportamentos. Afinal, se aquele
líder chegou ao poder se comportando dessa ou daquela forma, o lógico é supor
que, para alcançar aquele mesmo lugar no futuro, ele deva se comportar
daquela mesma maneira.
Infelizmente, ainda hoje, em pleno século 21, o que mais se vê em postos-chave das empresas são pessoas desprovidas de sensibilidade ética.
O
assédio-moral continua sendo praticado sem maiores consequências. Chefes
exercem o poder autoritário, que mandam e cobram sem sequer perguntar se a
tarefa é possível ou se a equipe precisa de algum apoio.
.
Secretárias continuam mentindo ao telefone quando o chefe não quer atender alguém. Clientes são desrespeitados, enganados e lesados sem que os gestores façam alguma coisa para mudar essa prática. Empresas perdem muito dinheiro em ações trabalhistas ou de defesa do consumidor por causa de decisões erradas. Projetos de redução de custos são arquivados para privilegiar outros que contribuem para a promoção pessoal dos gestores. Chefes decidem conforme seus interessem deixando os interesses da empresa e do cliente em segundo plano. Gerentes manipulam dados, forjam resultados, marretam relatórios ou maqueiam avaliações com o objetivo de viabilizar a implantação de projetos equivocados, mas que vão contribuir para engrandecer sua imagem pessoal. Sem falar naqueles que literalmente roubam ideias de seus subordinados e não reconhecem ou valorizam méritos alheios.
O
que se percebe é que muitos querem ser gestores, querem decidir e ser
obedecidos, mas nem todos querem assumir os problemas inerentes ao comando.
Assumir a responsabilidade pelos resultados da equipe implica em assumir
erros de avaliação ou de estratégia e os maus resultados também. Quem nunca
viu um chefe se eximir da culpa de alguma coisa que não funcionou bem e
sacrificar um subordinado sem qualquer drama de consciência? Claro que um
gestor não pode ser culpado por todos os erros cometidos por sua equipe, mas
cabe a ele atuar para evitar que erros se repitam e assumir a
responsabilidade quando o mau resultado é consequência do trabalho conjunto.
A
falta do investimento na criação da consciência ética, tão aparentemente
desinteressante sob o ponto de vista da área comercial, focada no alcance de
metas e na venda a qualquer preço, continuam criando futuros chefes que se
inspiram nos atuais. As empresas que não atuam para inibir as pequenas
condutas antiéticas acabam alimentando a formação de novos
"antilíderes", sem perceber que eles são verdadeiros sabotadores
nem o quanto eles contribuem para aumentar o risco do negócio. Além disso,
permitem que o ambiente empresarial se mantenha insalubre, perdendo por isso muitos
dos seus talentos.
Criar
o Código de Ética, a Comissão de Ética e punir fraudadores e ladrões não é
suficiente para desenvolver a consciência ética. Seguindo esses passos, a
empresa até fica "parecendo" ética, pode até direcionar seus ganhos
para negócios eticamente corretos, mas não reduz o custo invisível das
"pequenas" condutas antiéticas e continua exposta ao perigo de
muitas "pequenas" perdas financeiras. Esquecem que a reputação da
empresa, a imagem construida em anos de altos investimentos em marketing pode
ser destroçada por causa de uma única decisão equivocada.
Um
bom exemplo disso foi o que aconteceu com a British Petroleum. A empresa
investiu milhões de dólares na criação da marca BP - Beyond Petroleum, social
e ecologicamente correta, mas bastou uma decisão de um gestor de uma
plataforma no Golfo do México de não parar a produção para consertar uma peça
do sistema de segurança na exploração de petróleo e a explosão que aconteceu
em abril de 2010 causou prejuízos incalculáveis a milhares de pessoas e à
própria empresa.
Fonte:
O artigo é de autoria de:
*Márcia
Cristina Gonçalves de Souza,
formada em jornalismo, é pós-graduada em Gerência de Marketing pela ESPM/SP
(ministrado em Salvador) e MBA em Gestão Empresarial pela UCSal e UFRJ. Foi
gerente geral de unidades de negócios de uma grande empresa do mercado
financeiro, onde trabalhou por 28 anos. Em 2009, lançou o livro “Ética no
Ambiente de Trabalho – Uma abordagem franca sobre a conduta ética dos
colaboradores”, pela Editora Elsevier-Campus.
Publicado
no Portal Academus
|
5 de novembro de 2011
A falta de ética que passa despercebida nas empresas
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Já chegamos ao fundo do poço?
A crise moral, política e financeira que se abateu sobre o nosso país não nos dá a certeza de que já chegamos ao fundo do poço....
-
O Art. 47, § 2º da Lei nº 9.394/96 – Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) estabelece para a educação superior: "Os alunos ...
-
Uma questão que intriga muitos de nós brasileiros é não existir nas Cédulas de Identidade prazo de validade, o que se deduz que ela n...
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Agradecemos seu comentário. Críticas serão sempre aceitas, desde que observado os padrões da ética e o correto uso da nossa língua portuguesa.