22 de junho de 2013

DILMA ALGUMA COISA ESTÁ ACONTECENDO







Sra. Rousseff, alguma coisa acontecendo


Nunca gostei da postura política de Fernando Gabeira. Mas não posso deixar de reproduzir no meu blog o seu texto publicado no site Espaço Vital. Muito bom.

Alguma coisa está acontecendo e eu não sei exatamente o que é. Antes dos conflitos de mano Brasil, recebi o livro de Manuel Castells, "Redes de Indignação e Esperança". Castells é professor numa universidade da Califórnia e dedica-se ao estudo das redes e sua importância neste início do século. Examinou a Primavera Árabe, o Occupy Wall Street, o movimento dos indignados na Espanha e o caso da Islândia.

Antes mesmo desses movimentos, Castells via nas redes o caminho por meio do qual uma nova geração de ativistas buscaria mudança política fora do alcance dos métodos habituais de controle político e econômico. Segundo Castells, esses movimentos são mais voltados para explorar o sentido da vida do que para conquistar o Estado capitalista.

Essa observação é, para mim, curiosa. Nos anos 6o, alguns, como eu, transitaram do existencialismo para o marxismo. Agora, o existencialismo parece estar de volta. De novo, uma parcela da juventude sai em busca do sentido: conectar as mentes, criar significados, contestar o poder é a frase que Castells utilizou para sintetizar o programa dessas redes.

Se isso é verdadeiro para o Brasil, os R$ 0,20 de aumento dos ônibus foram apenas um dos pretextos para expressar a revolta. E os grupos da esquerda clássica, apesar de seu estardalhaço, funcionam aí apenas como aquelas lavagens na pedra que dão aparência de velho ao jeans que acaba de ser fabricado.

Criar significados em política significa também colocá-los na mesa para o debate. Não posso, por exemplo, condenar o Movimento Passe Livre porque no passado apoiei a tese do fim do passaporte no mundo. Até que me deparei com a gigantesca realidade da imigração internacional. A inquietação com o transporte coletivo pode ser existencialmente resolvida com a palavra de ordem passe livre. Mas apenas ela não muda a realidade dos que usam ônibus no Brasil.

O preço é amparado no aumento da inflação, que não deveria ser a única referência. Conforto, pontualidade, respeito ao usuário, condições de trabalho
dos motoristas, tudo precisa ser monitorado. Mas existe uma cumplicidade histórica de vereadores e deputados com as empresas de ônibus. No Rio de Janeiro, por anos, houve até pagamento mensal na Câmara. Mensalinho, mensalão, olha pro céu olha pro chão.

Lutar só pelo passe livre nos remete a um ônibus utópico. O que fazer com pessoas esgotadas depois de um dia de trabalho? Dizer, ano após ano, “coragem, irmão, o reino de Deus está próximo”?

A única cidade que adotou o passe livre, Porto Real, no Rio de Janeiro, o fez para atrair grandes empresas que queriam se instalar lá: Coca Cola e Citroen Peugeot. Foi um cálculo econômico e eu vou lá para estudar o caso.

Um dos aprendizados mais importantes para a geração que saiu às ruas no passado é o compromisso com a democracia, o que significa rejeitar a tese de que os fins justificam os meios. A violência derruba as melhores intenções. Ela é o inimigo interno que corrói a simpatia popular e acaba esvaziando as ruas. Em alguns lugares do mundo, governos usam provocadores infiltrados para desmoralizar o adversário.


Conselhos são vistos com desprezo num momento como este. Mas a história não começa do zero. Essa presunção é absurda e só tem validade na cabeça do PT, que acredita ter inaugurado o Brasil, em 2003.

Como as inquietações se transformam em mudanças, se a própria timoneira parece perdida? Dilma diz que está tudo maravilhoso, e tome vaia da torcida. O governo trouxe a Copa do Mundo para o Brasil por achar que isso era uma trunfo eleitoral imbatível. Todos os seus defensores afirmam que foi uma condenação da classe média alta. Como se fosse preciso examinar a renda antes de avaliar o peso de um protesto e como se as ruas de todo o País, de São Paulo a São Gonçalo, estivessem tomadas por gente da alta classe média.

É um momento duro para ela. Mas foi o PT que fez baixar o mais pesado manto de cinismo sobre a vida política brasileira. Dilma afirmou um dia que não tem perfil de candidata. Concordo com sua análise. No entanto, foi eleita num período de crescimento econômico, de esfuziantes gastos oficiais e milhões consumidos na máquina de propaganda.

Isaiah Berlin compara as habilidades de um governante às de um motorista que precisa de reflexos porque se vê, constantemente, diante de situações novas e inesperadas. De nada adiantam erudição e conhecimento histórico nem o batalhão de conselheiros. Há uma solidão inescapável do ofício do estadista.

Dilma foi embriagada pela dose de otimismo que o marketing ministrou. Afirma que são terroristas os que alertam para a inflação. Em seguida, diz que o governo vai dar a volta por cima. Segundo a própria canção, só se dá a volta por cima depois de uma queda e de sacudir a poeira.

Ela lançou uma lei de acesso a informações e proíbe os assessores de divulgar dados sobre suas viagens oficiais, hotéis, comitivas, gastos, sobretudo gastos.

Quando a maré baixa, dizem os analistas econômicos, fica evidente quem está nadando nu. Isso vale para os atores políticos nas grandes viradas históricas.

Lula diz que elegeu postes para melhor iluminar o Brasil. Referia-se a Dilma e a Fernando Hadad. E muito poético, até que se descubra a realidade úmida do poste, quando adotado pelos cachorros da vizinhança.

Para mim, o sistema de dominação que transformou a política brasileira num bordel entrou em declínio.

Na Islândia, que é muito pequena para ser um modelo, as revoltas desembocaram numa substituição do governo, numa nova maneira de gastar o dinheiro e numa Constituição moderna, que busca integrar a participação popular, potencializada pela revolução digital.

Alguma coisa está acontecendo no Brasil. Você pode ser contra, a favor ou mesmo ficar em cima do muro. Mas não pode negar a frase de Galileu Galilei: “Eppur si miove” (Ainda se move).



Fonte:

Publicado no site Espaço Vital

Artigo de Fernando Gabeira



Uma onda ainda sem destino, sem cor, mas que jamais será um tsunami.





 

         

As manifestações que hoje acontecem em todo o Brasil se assemelha a uma onda que cresce a cada dia, ainda descolorida, e que está longe de atingir o seu destino final.

Fico feliz ao ver que o brasileiro resolveu mostrar toda a sua indignação com o destino do país. Ainda mais feliz de saber que o movimento não tem cor. Partidos políticos que se atreveram aproveitar o espaço para aparecer foram imediatamente afastados. A única bandeira permitida é a brasileira. Muito bom.

Os excessos e o vandalismo não são tolerados pela grande maioria dos manifestantes, mas eles aconteceram tirando parcialmente todo o vigor do movimento. Não se podia esperar outra coisa, pois a criminalidade que assusta a todos nós é um dos muitos motivos que levaram o povo às ruas.

O clamor das manifestações repercute nos meios de comunicação e nas redes sociais. Ganham o mundo. 

Os governantes e os políticos foram nocauteados. Grogues, evitam falar no assunto. Pelé o Ronaldo se atreveram a falar e foram massacrados nas redes sociais.

A presidente Dilma, vaiada na abertura da Copa das Federações, sentiu-se como uma mãe injustiçada após tanto fazer para os seus filhos. Com soe acontecer, foi imediatamente consolada pelos seus devotos como afirmou na sua coluna o jornalista Augusto Nunes. Para eles (os devotos da Dilma) “no estádio só havia torcedores da elite golpista todos loiros de olhos azuis”. Augusto Nunes enfatiza: “Nem notaram que é outro tiro no pé: estão jurando que os pobres foram excluídos das arenas da Copa da Ladroagem pelo governo que jura só pensar nos pobres”.

Para onde vai à onda? Ela crescerá de tamanho? Vai virar um tsunami?

A presidente Dilma falou ontem em cadeia nacional. Sua fala, pelos comentários de muitos analistas políticos, de nada adiantou. Josias em seu blog afirma que a presidente quer jogar a culpa em uma minoria autoritária, mas ela esquece que “quem enviou os manifestantes ao meio-fio não foi um grupo de líderes, mas um sentimento”. Pesquisas feitas dão conta de que 83,5% da população ouvida afirma que o discurso da presidente não vai reduzir a onda de protestos pelo Brasil. 

Se o movimento dos manifestantes não tem uma cara, os brasileiros também não tem um “cara”, especialmente no meio político, que mereça um mínimo de respeito da população. Nasce de tudo isso, o nome do ministro Joaquim Barbosa, aclamado e convocado pelo povo para assumir as rédeas do país. Ele não é político, e pelo que se sabe, infelizmente, não tem essa pretensão. Uma pena.

Não posso negar que estou feliz pelo fato de o povo brasileiro ter acordado. O clamor das ruas me fez crer que ainda podemos sonhar com mudanças. Todavia, os programas de bolsas, criados por Fernando Henrique Cardoso, que o governo petista deu continuidade e que deveria ser uma simples ponte para que medidas eficazes tomassem o seu lugar na solução contra a miséria no país, hoje se transformou em definitivo e se constituindo no maior programa "lícito" de compras de votos no mundo.

E a maior prova disso foi uma declaração do ex-petista, Hélio Bicudo, que em vídeo (1) afirma que a Bolsa Família faz com que o cidadão “receba dinheiro para votar”. Diz ele, ter ouvido de José Dirceu – ex-ministro da Casa Civil, condenado no processo do mensalão, “que o programa era o caminho mais rápido para a obtenção de mais de 40 milhões de votos”.

A onda certamente vai chegar à praia, talvez nas próximas eleições, mas certamente as bolsas famílias se constituíram em barreiras de contenção para segurar qualquer tipo de tsunami.


(1)- http://www.youtube.com/watch?v=Et9OrjTelc8&feature=player_embedded