4 de outubro de 2012

Nos tempos dos nossos avós




CRÉDITO IMAGEM - WWW.ESPACOVITAL.COM.BR




A história que reproduzimos abaixo, publicada no site Espaço Vital, é tida com real. 

Vale a pena reproduzi-la para os nossos leitores pela forma não convencional utilizada pelo advogado criminalista que defendeu o réu em um processo.

Vamos a ela:

O advogado Afif Jorge Simões Filho gostava de exercitar o seu lado poético nas chamadas alegações finais de alguns processos criminais, geralmente na condição de advogado dativo, pois os réus, quase sempre do interior, não tinham condições de pagar um defensor. 

Numa delas, Hilário Pereira, pequeno agricultou, "cordiou" a patroa. O desentendimento entre o casal aconteceu no ano de 1959. 

Hilário estava trabalhando numa empreitada em lavoura de arroz e, quando voltou para casa, embrabeceu com a esposa, pois esta, valendo-se de sua ausência, fez diversas compras supérfluas numa venda do 2º Distrito de São Sepé (RS), que ficaram muito além das possibilidades financeiras do réu. 

Foram versos simples e bem-humorados, descontado, claro, o ranço machista que havia nos grotões da campanha gaúcha no final dos anos 50. Ainda bem que os tempos são outros, e mudou tanto que agora a situação se inverteu, pois até já tem mulher "passando o laço" no marido!

* * * * *

Mais uma cena de briga,
Entre um casal de campanha
Mais um marido que espanca
Mais uma esposa que apanha.

O réu espancou a esposa,
Porque esta, na sua ausência,
Fez uma conta comprida
No bodegão da querência.

Ao regressar da empreitada,
Todo saudoso e folheiro,
Caiu de costas ao ver
As notas do bodegueiro.

Eram brincos e tetéias,
Riscado, lenço e chapéu,
Para os parentes da esposa
Tudo por conta do réu.

Como da plata que trouxe
Não lhe sobrasse um vintém,
Hilário exemplou a esposa,
E, agindo assim, agiu bem.

Quem de nós não quis um dia,
Com a esposa gastadeira,
Fazer o mesmo que fez,
O réu Hilário Pereira.

É bruto cortar arroz,
Metido no lodaçal,
E deixar todo o salário
No bolicho do Sinval.

Tá certo que se gastasse
Com erva, farinha e pão,
Mas não com brincos de orelha
E coisas sem precisão.

Mas a esposa arrependeu-se,
Conforme disse ao depor,
De haver trazido à justiça
O marido espancador.

Se ela se diz conformada,
E arrependida da queixa,
Não vamos dizer: prossegue
Quando ela mesma diz: deixa.

Pobre réu. Estou convicto
De sua santa inocência.
Mas que aproveite a aprenda
Esta lição de experiência.

Se outra vez surrar a esposa
(Este é o pedido que eu faço),
Que surre de manso e de leve,
Sem deixar sinal do laço.

Ou então que surre forte,
Com toda força e vontade,
De modo que ela nem possa
Vir dar parte na cidade.

* * * * *
Circunstantes daquela época não sabem qual foi o desfecho do causo. Presumem que o réu tenha sido absolvido e vivido ao lado da patroa até passar para o mundo dos epitáfios...

Fonte:

www.espacovital.com.br

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