8 de dezembro de 2012

NATAL COM OS MEUS PAIS







Os anos passam e, a cada ano, sempre que se aproxima o dia 25 de dezembro, me vem à mente uma cena inesquecível que marcou os natais quando meus pais eram vivos.



Após o almoço, com toda a família reunida, meu Pai se posicionava estrategicamente para fazer a distribuição dos seus famosos envelopes. Sempre na cor branca, com os nomes escritos a mão, cada um daqueles envelopes continha uma parte do seu 13o salário. O valor da gratificação natalina que ele recebia, como funcionário público aposentado, era integralmente rateado em valores proporcionais para filhos, netos, afilhados e até bisnetos.



Para todos era um momento especial. Não pelo valor recebido, mas pelo gesto que virou uma tradição natalina tão diferente das praticadas em outros lares.



Em outro canto qualquer, minha Mãe resmungava. Dizia que aquilo não tinha justificativa, e o dinheiro deveria ser guardado para necessidades futuras. Enquanto meu Pai vivia o presente, minha Mãe só pensava no amanhã.



Meu Pai faleceu. Logo no primeiro Natal sem a presença dele, após o almoço, não é que minha Mãe, para surpresa de todos – que antes condenava a distribuição daquele dinheiro-, apareceu com os mesmos envelopes e fez a distribuição de toda a importância que ela havia recebido, como pensionista do meu Pai.



Indaguei a ela o motivo de sua decisão. Ela simplesmente me respondeu: - Não vou deixar que aquilo que fazia bem ao seu Pai deixe de ser praticado.



E assim ela fez até morrer.



Os envelopes deixaram de ser distribuídos com a morte de ambos, mas na minha mente eles continuam sendo entregues a cada ano em forma de proteção que recebo do meu Pai e da minha Mãe.



Saudade, quanta saudade daquele tempo.

NOTA:

Estou republicando a pedido de alguns leitores.



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